Aleitamento.com
AmamentaçãoMãe CangurúCriançasCuidado PaternoHumanização do PartoBancos de Leite Humano Espiritualidade & Saúde DireitosProteçãoPromoçãoILCA / IBCLCConteúdo ExclusivoTV AleitamentoGaleria AMNotíciasEventosSites e BlogsLivrariaCampanhas
 
Faça seu login e utilize ferramentas exclusivas. Se esqueceu a senha, acesse o "cadastre-se" e preencha com seu e-mail.

Convite: POR uma ÉTICA do CUIDADO

Por: Marisa Schargel Maia e Marcus Renato de Carvalho

Convite: POR uma ÉTICA do CUIDADO
     

 
 

Certa vez, ao atravessar um rio, Cuidado (Cura) viu um pedaço de terra argilosa. Ocorreu-lhe então a idéia de moldá-lo, dando-lhe forma. Enquanto pensava sobre o que acabara de criar, interveio Júpiter. Cuidado pediu-lhe que insuflasse espírito à forma que ele moldara, no que Júpiter o atendeu prontamente. Cuidado quis, então, dar um nome à sua criação, mas Júpiter se opôs, exigindo que ele, que lhe dera espírito, fosse também quem lhe desse o nome. Enquanto Cuidado e Júpiter (Zeus) disputavam sobre quem lhe daria o nome, apareceu a Terra que, tendo cedido parte de seu corpo para o que fora criado, queria também nomeá-lo. Diante de tamanha contenda, decidiram que Saturno seria o juiz da disputa. Saturno tomou então uma decisão equânime, proferindo a sentença: “tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito de volta; tu, Terra (Tellus), que cedeste do teu corpo, receberás o corpo de volta. Mas como foi Cuidado quem primeiro o formou, pertencerá a ele enquanto viver. E havendo entre vós disputa insolúvel sobre o seu nome, eu o nomeio: chamar-se-á ‘homem’, pois foi feito de húmus(terra fértil).                                                            

 (fábula de Higino)

 

 

Em tempos de descuido:

o paradigma do cuidado

 

                                                           Marcus Renato de Carvalho

                                               Marisa Schargel Maia

          

 

              A decisão de tecer uma reflexão sobre ética e cuidado se deu sob o constrangimento do profundo descuido que vivemos cujo acirramento testemunhamos na última década. Existem graves sinalizações sócio-culturais de descuido, mas, sem dúvida, a negligência com a vida e sua fragilidade é o eixo central de uma crise civilizatória de grande porte.

 

A partir desse amplo cenário e da prática clínica diária na Maternidade-Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro, articulamos, desde 2003, uma rede interdisciplinar de reflexão sobre questões que atravessam nosso cotidiano clínico e social. Essa rede conta com pesquisadores de diversos campos: saúde coletiva, medicina, antropologia, psicanálise, psicologia, enfermagem, filosofia, direito entre outros. Deste esforço coletivo, coordenado por Joffre Amim Júnior, diretor da ME/UFRJ à época, nasceu o curso de especialização em nível de pós-graduação Lato senso: Atenção Integral à Saúde Materno-Infantil da Maternidade-Escola da UFRJ, no qual o presente livro tem origem. Elaboramos o curso levando em consideração três diretrizes: ética, política e clínica.

 

Aqui, ética é “amiga” de éthos (morada, conjunto de hábitos) e êthos (disposição de alma, disponibilidade de espírito), sendo somente possível compreendê-la em campo alteritário. No que diz respeito ao cuidado, imbrica-se à bioética que, longe de ser uma ética da Medicina, como muitos acreditam, diz respeito a uma ética da vida, da preservação.

Ao pensarmos a diretriz política, sublinha-se seu sentido apartidário: uma micropolítica exercida no cotidiano da práxis, pública ou privada, cujo maior objetivo é a aposta na celebração da vida e seu investimento.

O enfoque clínico visa a integralidade da assistência em saúde. Acreditamos que aprofundar a formação humanística dos profissionais que atuam junto à díade mãe-bebê, e/ou família-criança, possa ser uma contribuição significativa para a criação de um campo mais fértil em que processos humanizantes (subjetivantes) possam tomar forma com maior vigor.

Por outro lado, se tomarmos a clínica em um sentido lato, como observaremos em alguns trabalhos, percebe-se que, no âmbito da saúde coletiva, clinicar não se refere a procedimentos técnicos dirigidos, mas diz respeito ao campo complexo de propostas e estratégias públicas cujo horizonte emerge de um projeto maior: o bem estar do Homem. O Homem não é entidade atemporal, mas construção de um projeto civilizacional – resultado de processos historicamente datados.

 

Este livro é um dos desdobramentos do fórum de debates que se constituiu a partir da criação do curso[1]. Nesse fórum, uma rede vem sendo tecida, sendo o Cuidado, em dimensão ôntica e ontológica, o fio que amarra as diversas teorias, práticas e afetos.

 

Por Uma Ética do Cuidado foi estruturado de acordo com quatro temas: cultura; subjetivação; clínica; descuido e violência. Apesar de boa parte dos autores estarem atrelados ao campo da saúde, este não é um livro para especialistas. Nossa intenção é que seus escritos possam afetar como em uma iniciativa de cuidado; como um ato de fazer barragem ao sentimento desolador de descuido que tanto nos tem fragilizado. Que possa ser uma alavanca para quem, mediante a experiência de urgência que o momento atual tem suscitado, quiser trocar e fazer uso das reflexões aqui oferecidas.

Cabe ressaltar que, apesar do livro ter sido estruturado de acordo com quatro temas, os quais se articulam à idéia de cuidado, os trabalhos (em sua maioria) dizem respeito às quatro linhas apresentadas, entrelaçando-se e formando uma trama teórica. Ao propor esta coletânea de artigos, nosso interesse maior é ampliar a rede de interlocutores. Com esse intuito, acrescentamos a seguir algumas notas sobre os escritos aqui publicados.

 

No tópico “Ética, cuidado e cultura“, Alexandre Costa, de formação filosófica, interpreta, em interlocução com Heidegger, a fábula de Higino “O mito do cuidado”. Analisa, aqui já sem o compromisso com o pensamento heideggeriano, a condição humana que é intermediada pelo saber da morte, pelo conhecimento: “o homem cuida porque sabe da sua mortalidade”.  Para o autor, é o sentimento de angústia que revela, de forma mais cristalina, a condição humana como cuidado.

 

Carlos Alberto Plastino discute a dimensão ética da atitude orientada a cuidar do outro, enfatizando o reconhecimento da alteridade; movimento fundador da própria subjetividade de quem cuida. Essa atitude ética responde à vocação da forma de ser do humano, através da qual o reconhecimento do outro, a preocupação pela vida e o bem-estar deste, é significativa para sua constituição. Elabora uma reflexão de cunho historicista sem negar a inserção do homem na natureza; analisa a potência de criação como sua essência fundamental. Para tal, o autor se vale da teoria psicanalítica, dando destaque à linha de pensamento que vai de Freud à Winnicott.

 

Sob o título, “Cuidado e subjetivação”, reunimos artigos que abordam diferentes aspectos implicados no Cuidado. Luís Claudio Figueiredo, discute suas diversas faces sobretudo no plano da cultura e da atitude de cuidar especializada. Analisa alguns procedimentos específicos e rituais culturais que têm a função de estabelecer as condições do vir-a-ser humano: o cuidar de si e do outro é um facilitador para a criação de um sentido humano.  Em seguida, ao abordar especificamente o cuidar especializado, lança mão de ampla conceituação psicanalítica, visando aprofundar os mecanismos psíquicos implicados na atitude de cuidar; Figueiredo adverte para o risco de desdobramentos patológicos que o excesso de cuidado pode causar. Uma última afirmativa vale ser ressaltada: . “Nossa capacidade de prestar atenção uns nos outros... parece drasticamente reduzida...recuperar esta capacidade me parece uma tarefa urgente e preciosa...”.

 

Maria Izabel Oliveira Spazcencopf aborda a exclusão que leva à segregação e morte social. Alerta para a necessidade de se resgatar o princípio da igualdade, tomando como critério a condição humana e os direitos de todos, num esforço de recolocar a responsabilidade pela vida. O fio de pensamento se desenvolve através da teorização política, sociológica, filosófica, jurídica e psicanalítica. Para a autora, nenhuma dessas disciplinas pode ser excluída, já que molas mestras para recuperar o que de humano cada um deve fazer sobreviver em si mesmo, e no outro, para resgatar o gosto pela ética do cuidado. Com esse intuito, passa por autores como Gauchet, Arendt, Lefort, Agamben, Levinas, Freud, Maud Mannon.

 

Ricardo Burg Ceccim e Analice de Lima Palombini fazem uma reflexão sobre aspectos da história da criança e seu devir; não lhes interessa um enfoque real ou ideal da criança, mas a análise de algumas imagens que ao longo da história capturam o devir humano: a exclusão da infância; a roda dos enjeitados; sua majestade, o bebê; pai provedor, mãe educadora etc. Ao longo do texto, propõem uma perspectiva para abordar o cuidado em saúde: “para cuidar é preciso exposição ao outro. Aceitação do outro como ele é, mas também do que nele pede passagem e oferece acolhimento”.

 

No tópico “Cuidado e clínica” reunimos, além de artigos que aludem à prática de cuidado especializada, aqueles onde o leitor também pode encontrar uma reflexão sobre os modos psíquicos subjetivos que se operam todo o tempo na prática clínica, potencializando os processos de humanização.

Inspirado por três eventos relatados pela mídia ocorridos em Bagdá, Budapeste e Rio de Janeiro, Daniel Kupermann analisa algumas figuras contemporâneas do cuidado das quais carecemos. Utiliza ferramentas psicanalíticas para abordar temas como: hospitalidade, empatia, trauma e desmentido, clivagem narcísica, banalização da violência.

          

No tópico “Cuidado e clínica” reunimos, além de artigos que aludem à prática de cuidado especializado, outros onde o leitor encontrará reflexões sobre os modos psíquicos subjetivos que se operam durante a prática de cuidado, potencializando os processos de humanização. Neste tópico, temos o prazer de contar com a transcrição da conferência, “Soin et Prévention” (“Cuidado e Prevenção”), proferida por Claude Boukobza no I Simpósio Internacional de Atenção Integral À Saúde Materno-Infantil: parte fundamental da rede de interlocução já mencionada. Boukobza enfrenta o difícil tema da prevenção de maus-tratos à criança. Fala amplamente de sua prática psicanalítica com mães e bebês e da experiência da “Unité d’Accuelil Mere-Enfants de Saint-Denis” em Paris (Unidade de Acolhimento do Hospital St. Denis.

 

Em seu ensaio, Eduardo Rozenthal explicita através da teorização de Foucault, a vinculação do cuidado de si com o cuidado do outro em psicanálise, ou seja, seu objetivo é estabelecer se – ou em que medida – o cuidado de si possui relação de débito para com os laços sociais efetuados. A partir dessa análise prévia, propõe articulações conceituais entre as dimensões estética e ética da subjetividade.

 

            Lulli Milman desenvolve seu escrito a partir da prática de trabalho no programa Casa da Árvore. Analisa aspectos da relação clínica que se estabelece entre os psicólogos e as crianças que o freqüentam nas favelas cariocas. Por ser um espaço aberto, de convívio, onde  as crianças freqüentam livremente, ficando o tempo que desejam, os encontros entre adultos e crianças se dão de forma bastante diversificada. A Casa da Árvore é um lugar de transferência para onde as crianças se dirigem livremente em busca de ajuda para seu sofrimento; nesse convívio peculiar, adultos e crianças constroem um espaço comum de fala em que cada um é incentivado a se colocar  como sujeito e como cidadão.

 

Envolvidos em refletir sobre a ética do cuidado, não podemos negligenciar a questão da resistência ao cuidado. Aline Bergmann e Vera Lopes Besset debruçam-se sobre esse tema; partindo das contribuições da psicanálise, tomam como referência três casos clínicos de um hospital do Estado do Rio de Janeiro onde a primeira autora exerce a função de psicóloga. Nestas experiências, os pacientes recusam algum tipo de cuidado.

 

Para Márcia Merquior, uma reflexão sobre ética e cuidado não pode perder de vista que as discussões atuais sobre a saúde no mundo contemporâneo têm com marco histórico, a I Conferência Internacional de Promoção de Saúde, realizada no Canadá em 1986. Desde então, o conceito de Promoção de Saúde é o princípio básico norteador de mudanças táticas e estratégicas no setor das diversas práticas médicas e terapêuticas. Essas mudanças apontam para uma transformação paradigmática que se desloca do eixo terapêutico, curativo para o eixo preventivo, determinando intervenções que levam em conta a complexidade da questão, dos métodos e dos cenários. Valendo-se do trabalho de Humberto Maturana, a autora propõe que a clínica seja atravessada pelo acolhimento do “antigo” hábito de conversar.

 

Por fim, em “Descuido e violência”, Andréa Barbosa de Albuquerque parte de um dado empírico para sua análise: a criança que apanha dos pais. Por referência à experiência clínica, em um hospital universitário, com crianças vítimas de violência familiar, a autora discute alguns fatores envolvidos na situação de agressão física à criança; indica como a mesma cena do bater/apanhar pode comportar diferentes sentidos que, por sua vez, promovem marcas psíquicas diferenciadas na constituição subjetiva infantil.

 

Luis Eduardo Soares aborda a desproteção da juventude imersa no drama brasileiro da violência. Analisa diversas modalidades de violência, dando destaque a algumas formas sutis, por exemplo: a violência doméstica, a de gênero contra as mulheres, o racismo e a homofobia. Também trabalha o drama da invisibilidade das crianças de rua, percorrendo inúmeros conceitos antropológicos nessa análise.

 

O artigo de Vânia Mercer e Antônio Gediel inscreve-se na interdisciplinaridade – psicanálise e direito. Discute a violência familiar contra a criança e o adolescente em uma leitura que salvaguarda a integridade desses sujeitos. O abuso sexual e o incesto colocam-se como situações-limite que implicam a perversão das relações sociais e familiares. Tal fato, requer sentidos e respostas psicológicas e psicanalíticas que ultrapassam a conseqüência jurídica de perda do poder parental e da institucionalização das vítimas. As soluções binárias (lícito ou ilícito) que marcam o espaço jurídico se apresentam insuficientes, afirmam os autores, já que exigem das vítimas a ruptura de um silêncio que somente a escuta psicanalítica pode ouvir.

 

Marisa Schargel Maia, tomando por referência o quadro contemporâneo de crise, centra-se no par viver o risco/sentir-se em risco para discutir a construção de subjetividade na atualidade. Em um segundo momento, analisa a experiência de violência psíquica como promotora de outras formas de violências. Sublinha que grande parte da violência social decorre do descuido para com a infância destinada, pelo abandono, às experiências de privação e violência psíquica.

 

Para finalizar, agradecemos a Ferreira Gullar e a Gianguido Bonfanti que, com delicadeza, nos oferecem outras formas de Cuidado.

 

                                     

[1]Este fórum de debates inclui também o I Simpósio Internacional de Atenção Integral à Saúde Materno-Infanti, realizado nos dias 25 e 26 de outubro de 2007 na Maternidade-Escola da UFRJ, sob nossa coordenação.


Última atualização: 4/1/2011

 

Curtir

Comentários


Essa é uma área colaborativa, por isso, não nos responsabilizamos pelo conteúdo. Leia nossa Política de Moderação.
Caso ocorra alguma irregularidade, mande-nos uma mensagem.

 

Depoimentos

Gostou do site? Ele te auxiliou em algum momento? Deixe seu depoimento, assine nosso livro de visitas! Clique aqui.

Quem Somos | Serviços | Como Apoiar | Parceiros | Cadastre-se | Política de Privacidade/Cookie/Moderação | Fale Conosco
O nosso portal possui anúncios de terceiros. Não controlamos o conteúdo de tais anúncios e o nosso conteúdo editorial é livre de qualquer influência comercial.
Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência. Ao navegar no mesmo, está a consentir a sua utilização. Caso pretenda saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade/Cookie.
24 Ano no ar ! On-line desde de 31 de julho de 1996 - Desenvolvido por FW2 Agência Digital