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Prof. Cesar Victora ganha Premiação Científica do CANADÁ: GAIRDNER

Por: Prof. Marcus Renato de Carvalho, UFRJ

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Cesar Victora ganha

prêmio Gairdner de Saúde Global

 

O epidemiologista Cesar Victora, 65, se torna o primeiro pesquisador brasileiro entre os vencedores do Prêmio Gairdner, a mais importante premiação científica do Canadá e uma das mais respeitadas mundialmente na área de ciências da saúde. O anúncio foi realizado em cerimônia, na cidade de Toronto, Canadá.

 

                     Desde 1957, o Prêmio Gairdner distingue anualmente sete cientistas por suas contribuições à pesquisa em medicina e saúde global, tendo premiado mais de 360 pesquisadores em 30 países. Victora foi vencedor na categoria Saúde Global, com o prêmio-título John Dirks Canada Gairdner Global Health Award, que reconhece avanços científicos que produziram profundo impacto para a saúde em países em desenvolvimento. Cada um dos premiados é considerado um potencial candidato ao prêmio Nobel – entre os laureados do Gairdner, 84 foram posteriormente agraciados pelo Nobel de Medicina ou Fisiologia.

Professor emérito da Universidade Federal de Pelotas, Victora obteve a distinção pelo conjunto de seus estudos sobre amamentação e nutrição materno-infantil, que demonstraram o impacto do aleitamento materno exclusivo sobre a mortalidade infantil e os efeitos da nutrição nos primeiros anos sobre a saúde da infância à idade adulta.

Seus estudos definiram o rumo de políticas e campanhas de saúde pública adotadas hoje internacionalmente. 

 

Primeiro estudo a detectar a relação direta entre amamentação exclusiva e prevenção da mortalidade infantil 

Na década de 80, o pesquisador da UFPel liderou o primeiro estudo epidemiológico a detectar a relação direta entre amamentação exclusiva e prevenção da mortalidade infantil. Por meio da revisão dos óbitos infantis ocorridos no período de dezembro de 1984 a dezembro de 1985 em dez cidades no Rio Grande do Sul, o estudo de casos e controles revelou que o aleitamento exclusivo até os seis meses reduzia em 14 vezes o risco de óbito infantil por diarreia e em 3,6 vezes o risco de óbito infantil por infecções respiratórias. O estudo identificou ainda que o risco de mortalidade aumentava entre crianças que além do leite materno recebiam água, chás ou sucos. As descobertas levaram o Unicef e a OMS ao estabelecimento de políticas mundiais de recomendação do aleitamento exclusivo nos primeiros seis meses de vida.

 

Estudo que deu origem às curvas de crescimento infantil da OMS, adotadas em mais de 14o países

 

Como colaborador da OMS, Victora foi um dos coordenadores do estudo multicêntrico que documentou o crescimento de 8,5 mil crianças de cinco continentes. Iniciado em Pelotas (RS) pelo grupo de pesquisa liderado pelo epidemiologista, o estudo estabeleceu as novas curvas de crescimento infantil da OMS para crianças de zero a cinco anos. Pela primeira vez em saúde pública, o instrumento constitui uma referência mundial para o crescimento infantil, sendo adotado atualmente em mais de 140 países, inclusive no Brasil.

 

Pesquisa que apontou a importância dos primeiros mil dias de vida para a saúde do adulto

 

Em 2006, à frente da coorte de nascimento iniciada em 1982 em Pelotas (RS), Victora coordenou um consórcio internacional de pesquisa incluindo cinco coortes de nascimentos em países de renda baixa e média. O estudo reuniu informações sobre a saúde de aproximadamente 11 mil crianças, monitoradas do nascimento à idade adulta. A análise do impacto da nutrição precoce sobre o desenvolvimento de fatores de risco para doenças crônicas na vida adulta levou os pesquisadores a elaborar o conceito de “janela de oportunidades”, preconizando que intervenções nutricionais em saúde materno-infantil devem priorizar os primeiros mil dias – do início da gestação aos dois anos de vida. Os achados constituem uma das bases da campanha 1,000 Days, conduzida como estratégia prioritária para a promoção da saúde de gestantes e crianças em países de baixa e média renda.

 

Primeiras evidências da associação entre amamentação prolongada na infância e níveis de QI, escolaridade e renda aos 30 anos

 

Mais recentemente, o trabalho de Victora voltou a mobilizar a atenção da comunidade científica internacional ao fornecer as primeiras evidências epidemiológicas de efeitos da amamentação sobre a inteligência, que persistem até a vida adulta. Publicados na revista The Lancet Global Health de março de 2015, os resultados apontaram associação entre amamentação prolongada na infância e capital humano na vida adulta: crianças que foram amamentadas por mais tempo até a idade de dois anos apresentaram melhores níveis de inteligência (QI), escolaridade e renda aos 30 anos.

 

Coordenador do centro responsável pelas análises de equidade dos indicadores de saúde materno-infantil ligados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

 

Coordenador do Centro Internacional de Equidade em Saúde da UFPel, Victora é um dos fundadores e atual diretor da estratégia Countdown to 2030 for reproductive, maternal, newborn, child, and adolescent health and nutrition. A iniciativa reúne governos, agências internacionais e instituições científicas para monitorar o progresso mundial em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU, com foco sobre cobertura e equidade de intervenções efetivas para prevenir mortes evitáveis de mulheres e crianças em 81 países em desenvolvimento.

Além de Professor Emérito da Universidade Federal de Pelotas, Victora ocupa posições honorárias nas universidades de Harvard, Oxford, Johns Hopkins e Londres.

 Fonte: Assessoria de Imprensa - Foto: Daniela Xu

 

 'Amamentação é uma questão da sociedade',

diz especialista

    

Ganhador de um dos prêmios mais importantes no mundo na área de ciências e saúde por estudos sobre o aleitamento materno, o epidemiologista Cesar Victora enfrenta dificuldades para conduzir suas pesquisas no Brasil. Diante do atraso no repasse de recursos federais, ele precisou de auxílio da Pastoral da Criança para não interromper um estudo de anos de duração. 

A entrevista é de Lígia Formenti, publicada por O Estado de S. Paulo, 29-03-2017.

Sem a etapa realizada no prazo correto, contou, o trabalho de anos poderia ir por água abaixo. O problema imediato foi contornado, mas o risco persiste. "Nossas coortes (grupos de pessoas acompanhadas desde o nascimento) estão ameaçadas." 

Professor da Universidade Federal de Pelotas, Victora ressaltou a necessidade de não se culpar a mulher por eventuais problemas na alimentação ou amamentação e criticou a estratégia defendida pelo ministro Ricardo Barros para se reduzir a obesidade infantil, de se ensinar nas escolas crianças a descascar alimentos. "É muito mais importante taxar os alimentos ruins e proibir a propaganda do que ensinar uma criança a descascar uma maçã." 

Eis a entrevista.

Ao iniciar o estudo sobre amamentação exclusiva, o senhor imaginava obter esse resultado?

Não, foi uma surpresa. Todos sabiam da importância do aleitamento. Mas até então ninguém tinha se dado conta de que a oferta de água e dos chás, na época nas famosas "chuquinhas", fosse prejudicial. Pelo contrário, acreditava-se que só leite materno não supriria toda a necessidade de líquidos. Vimos que o risco aumentava de forma muito expressiva a cada chuquinha ofertada.

O resultado foi uniforme entre todas as classes sociais?

Não. Avaliamos todas as mortes por diarreia ocorridas em Pelotas e Porto Alegre durante um período. Ao todo, foram 170, a maioria em população pobre, que vivia em favelas. Naquela época era mais fácil entrar em favela. Não sei se hoje conseguiria fazer o estudo, por causa da violência.  

Mas a recomendação foi para a população em geral

Esse efeito é tão importante que mesmo países ricos, Estados Unidos e Inglaterra, por exemplo, passaram a recomendar essa estratégia. Isso porque, além do risco de diarreia e de infecção, a oferta de líquidos diminui a produção de leite e a amamentação fica mais curta.

A amamentação brasileira já está em níveis adequados?

Os números que dispomos são antigos. A última pesquisa nacional foi em 2007. É preciso fazer uma nova pesquisa nacional. Mas sabemos que mais ou menos metade das crianças brasileiras tem aleitamento exclusivo até os seis meses. É o tal copo meio cheio, meio vazio. Quando comecei a estudar o assunto, nos anos 80, esse indicador era zero. Estamos indo na direção certa.

Está havendo demora em se elevar esses indicadores?

Sim. Mas essas coisas são complicadas de se aumentar. A amamentação depende muito da sociedade apoiar a mulher. Em uma série publicada na revista Lancet sobre amamentação usamos o Brasil como um exemplo positivo. O País investiu muito em amamentação. A licença-maternidade paga é grande comparada com outros países, há uma série de políticas de proteção da amamentação, como o controle dos substitutos de leite materno, a rede de banco de leite.

As taxas de cesárea no Brasil continuam altas. Isso pode afetar a amamentação?

É muito importante que a amamentação comece logo na primeira hora depois do nascimento. Estudos recentes indicam que essa prática pode provocar uma série de efeitos epigenéticos, que é a modulação de genes, e efeito sobre o microbioma, o efeito que a bactéria terá sobre o intestino da criança. A cesárea atrapalha esse processo. Não que seja impossível colocar uma criança imediatamente no seio da mãe praticamente durante a cesárea, enquanto a equipe se ocupa em fechar a barriga da mãe, a criança estar agarrada no peito. Mas é difícil. Vemos isso com preocupação. Afinal, 60% dos nascimentos no país são por cesárea.

O senhor enfrentou dificuldade de financiamento para suas pesquisas?

No começo era difícil porque ninguém nos conhecia. Depois, fomos ficando conhecidos e conseguimos muitos financiamentos, principalmente internacionais. Atualmente, no entanto, estamos numa crise, porque a ciência brasileira está em crise. Temos um financiamento grande nacional. Mas o dinheiro não chega. 

O dinheiro está bloqueado?

O dinheiro é anunciado, você ganha o projeto, mas os órgãos federais não liberam porque não têm caixa. Financiamentos que recebemos em 2014 estão sendo liberados agora. O financiamento muito grande para manter nossas coortes (populações acompanhadas ao longo dos anos) está trancado. Isso é muito ruim, porque o acompanhamento de coortes não pode esperar. Isso não é uma pesquisa numa cobaia, que você pode fazer hoje ou amanhã. Essas pessoas são acompanhadas desde o nascimento. Periodicamente, você as visita. Se isso não é feito no período certo, você perde o dado essencial sobre o desenvolvimento e a saúde dessa pessoa. A comunidade científica brasileira está muito preocupada com essa questão de redução nas verbas na área de pesquisa. 

Como os senhores estão fazendo para driblar a falta de recursos?

Nos últimos dois, três governos a ciência teve um bom financiamento, mas agora... No passado, buscávamos recursos de fontes internacionais. Agora retornamos a essa estratégia. Mas isso não é algo que ocorre da noite para o dia. Um financiamento demora certo tempo. Até fazer o projeto, até receber a aprovação. A curto prazo, nossas coortes estão ameaçadas porque contávamos como certo o dinheiro do governo federal que não chegou. Por enquanto, estamos conseguindo apertar o orçamento, pegar um pouco de dinheiro daqui, um pouco de dinheiro dali. A Pastoral da Criança, por exemplo, agora nos ajudou a financiar a visita de 2 anos de acompanhamento de bebês que nasceram em 2015.

E a situação dos novos pesquisadores?

Estou muito preocupado porque os pesquisadores jovens estão indo para o exterior. Esse ano mesmo três integrantes super capacitados do meu grupo foram para a Inglaterra. Eles são atraídos por outras universidades onde eles têm oportunidade de fazer pesquisa. São pesquisadores jovens, que o Brasil investiu na formação. É muito triste esta situação. Os melhores estão indo.

O senhor vê perspectiva de melhora?

Com todas essas limitações orçamentárias que estão ocorrendo, o teto dos gastos públicos... acho difícil. A pesquisa vai se tornando mais complexa, mais tecnológica, exige máquinas mais complexas, exames mais complexos. Isso tudo custa dinheiro.

Qual a importância do trabalho que o senhor conduziu sobre amamentação exclusiva e sobre os mil dias para a saúde?

Os dois trabalhos influenciaram políticas globais. A partir de 1991, a ONU passou a recomendar o aleitamento exclusivo. O meu trabalho foi o primeiro, mas depois outros confirmaram o mesmo. Nenhuma política mundial muda por causa de uma única pesquisa. Depois do nosso trabalho, publicado em 1987, a pesquisa da amamentação foi replicada no Peru e nas Filipinas. O mesmo aconteceu com a recomendação dos mil dias, outros estudos foram feitos. Várias agências internacionais ressaltam a necessidade de garantir uma nutrição adequada para a gestante e para o bebê, nos dois primeiros anos de vida. Se as ações de nutrição são feitas quando a criança atinge os 4, 5 anos, o efeito é muito menor. É aquele ditado "é de menino que se torce o pepino."

Qual deve ser o foco nos primeiros mil dias?

Para começar, um pré-natal de qualidade, para conseguir a nutrição da mulher, quando necessário, com suplementação com vitaminas. 

Quais os benefícios?

Uma criança subnutrida é pequena. Mas não é apenas estatura. Seu cérebro é pequeno, seu rim é pequeno, seu pâncreas, fígado. Com isso, ela tem risco maior de ter diabete, de ter doenças cardiovasculares e assim por diante. As pesquisas mostram que uma boa nutrição do bebê ainda dentro do útero e dos dois anos tem um impacto até mesmo na epidemia de diabete que vivemos aqui.

Por que a criança desnutrida tem maior chance de ter diabete?

A capacidade de produzir insulina depende do número de células que você tem nos órgãos encarregados do metabolismo. Uma criança desnutrida tem maior propensão a apresentar órgãos com dificuldade para desempenhar essa atividade. Essas crianças, desnutridas na infância, quando chegam à adolescência e idade adulta são expostas a uma dieta rica em gorduras e calorias. A dificuldade em metabolizar aumenta o risco para diabete, aterosclerose e doenças cardiovasculares. Uma deficiência que surgiu lá nos primeiros mil dias se une a outro problema dos dias atuais. 

O ministro da Saúde, Ricardo Barros, associou a obesidade infantil ao fato de ela não aprender "com as mães" em casa a descascar alimentos in natura.

É preciso ter muito cuidado e não culpar a mulher. A questão da alimentação infantil, assim como a questão da amamentação é uma questão da sociedade. Se a mulher trabalha fora, não tem creche, se ela tem uma licença maternidade curta, se ela é uma trabalhadora informal nem licença maternidade ela tem, claro que isso vai afetar a amamentação. Isso não é culpa da mulher.

E a obesidade?

A saída está no controle da propaganda de alimentos e na taxação de alimentos não saudáveis. O México criou uma taxa extra em refrigerantes. Pelo lobby da indústria alimentícia, nosso governo tem sido muito tímido nessa área. Nosso legislativo tem sido contrário a taxar esses alimentos não saudáveis. Para mim é muito mais importante taxar os alimentos ruins e proibir a propaganda do que ensinar uma criança a descascar uma maçã.

 

Aguardem aqui no aleitamento.com notícias de como será a entrega do Prêmio no Rio de Janeiro em maio próximo.



 

 


Última atualização: 31/3/2017

 

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